Universidade e Emprego
Artigo de opinião de Manuel António Assunção, Reitor da Universidade de Aveiro, sobre os Estudos superiores e aplicação do conhecimento
A frequência do ensino superior constitui uma experiência por muitos procurada enquanto tal. Assume um valor essencial no desenvolvimento individual de cada um; e representa um acréscimo de cidadania e um bem social, que resultará, inevitavelmente, de termos mais pessoas com melhor formação e educação. No entanto, numa sociedade onde o conhecimento é cada vez mais determinante para o sucesso individual e coletivo, é fundamental que os estudos superiores tenham relevância para o tecido produtivo, ajudando a garantir que o conhecimento produzido nas Universidades se repercuta na economia.
Há sempre muito a fazer para que o casamento entre conhecimento e economia seja mais feliz e dê mais frutos, permitindo a tão necessária criação de mais riqueza. A formação de recursos humanos é uma parte central dessa equação. Gente mais qualificada, mas que, simultaneamente, detenha as competências ajustadas às necessidades da estrutura produtiva.
O desejo já não é só produzir mais em menos tempo. É necessário estar familiarizado com conceitos como diferenciação do fabrico adaptado ao cliente ou desenvolvimento contínuo de produtos, com linhas de produção flexíveis, com a “internet das coisas”. Já não é, apenas, preciso lidar com a substituição de equipamentos tradicionais por máquinas mais sofisticadas ou com mudanças no grau de automatização destas. Hoje, estamos perante o imperativo de interligar equipamentos, de os pôr a comunicar uns com os outros.
Ao mesmo tempo, o desafio é o de trabalharmos em organizações menos hierarquizadas, com novas formas de comunicação com os clientes, com métodos de gestão inovadores. Seja em empregos de tipologias recentes, seja em empregos transformados, uns e outros crescentemente mais complexos.
É por isso que, a par do que é nuclear em cada curso superior, estamos, atualmente, bem cientes da importância de outras competências para que haja um maior ajuste com as necessidades das empresas e dos serviços. Competências que, estando adquiridas, permitem alargar o leque de oportunidades de emprego e flexibilizar os percursos profissionais dos licenciados, mestres e doutores.
Capacidade de pensamento crítico e de adaptação a novas situações, domínio de línguas estrangeiras, conhecimento do mundo para além da academia e aptidões comportamentais e emocionais são, entre outras, aquisições que se vão revelar fundamentais pela vida fora e que são, mais e mais, apreciadas por quem recruta pessoas. A mundivivência e o cosmopolitismo, como atitudes de quem está aberto a outros hábitos e culturas, constituem traços de personalidade cada vez mais preciosos, valorizados pelos empregadores. A preocupação em dotar os estudantes com essas virtualidades deve, pois, fazer parte dos desígnios das Universidades. Porém, têm, igualmente, que assumir-se como exigências que os estudantes colocam a si próprios no seu percurso formativo.
Outros instrumentos determinantes no tal ajustamento entre competências adquiridas e as exigências das indústrias ou dos serviços são os estágios e os projetos em contexto de trabalho. Conhecimento mútuo de realidades diferentes, estabelecimento de redes com gente de várias origens e sensibilidades, criação de canais de comunicação privilegiados entre o mundo académico e o mundo industrial ou outros setores de atividade, contributos para mudanças nos currículos são vantagens que os estágios curriculares ou profissionalizantes propiciam como nenhum outro. Em prol da empregabilidade, mas, de igual modo, enquanto elementos importantíssimos na transferência de conhecimento e tecnologia ou no aparecimento de novas ideias e produtos.
Perspetivas laborais dos diplomados: vale a pena estudar
Existe, todavia, uma ideia bastante difundida que as Universidades não providenciam as competências necessárias para o trabalho; a que acrescem as características de uma parte substancial do tecido empresarial onde predomina, ainda, o baixo nível de tecnologia e de conhecimento incorporado na produção e na gestão. Tudo junto, não é suficientemente valorizada a importância do conhecimento que, pela primeira vez na história da humanidade, ultrapassou a importância das matérias-primas enquanto reserva estratégica que determina o desenvolvimento de povos e países. Daí à perceção, instalada em setores significativos da sociedade, de que não vale a pena estudar é um passo. Nada de mais errado! Desde logo, estamos longe da média europeia em termos de pessoas com formação superior, sendo certo que já não conseguiremos atingir a meta que a União consignou neste domínio para 2020. É por isso fundamental ter mais gente no ensino terciário.
Aliás, olhando para os números e para os factos não é, puramente, verdade. As pessoas mais escolarizadas apresentam taxas de desemprego mais baixas: no que se refere aos graduados do ensino superior, em 2014, aquela taxa era cinco pontos percentuais inferior à dos trabalhadores com formação secundária. O tempo de espera por um primeiro emprego é, também, menor, apresentando os licenciados e os pós-graduados uma transição mais rápida do desemprego ou da inatividade para um emprego e, do mesmo modo, uma menor probabilidade de o perder.
As oportunidades e as possibilidades de escolha à disposição de quem é qualificado superiormente são muito mais vastas e as remunerações auferidas são melhores. Vendo o que se passa a nível internacional colhe-se a evidência que a formação obtida confere vantagem aos diplomados do ensino superior. Estudar constitui um investimento firme para o futuro na exata medida em que a educação vem sendo entendida como um investimento, imprescindível, em capital humano.
Concluir um curso superior vale, pois, a pena. Uma menção particular para a formação doutoral que em vários países vem sendo, prioritariamente, considerada crucial na produção de conhecimento novo, na inovação e no crescimento económico. Também neste domínio, e de acordo com o parecer da OCDE, não se existe o risco de vir a haver doutorados a mais, cifrando-se a taxa de empregabilidade destas pessoas acima dos 95% na maioria dos países que integram aquela organização.
Duas notas finais. A primeira para reiterar a grande relevância das competências transversais enquanto fatores que influenciam a empregabilidade, tanto mais quanto mais avançada for a formação. São evidências relatadas, nomeadamente, pela European Science Foundation e pela União Europeia. Capacidade de se ligar a outros e dinamizar parcerias; ser empenhado no que for decidido, todavia manter-se flexível na resolução dos problemas; mostrar experiência e aptidões para além das que adquiriu na Universidade; e conservar laços com esta constituem parâmetros que determinam a escolha dos empregadores. São razões pelas quais na Universidade de Aveiro, por exemplo, se estabeleceu uma política de incentivo à aprendizagem de línguas e de outras disciplinas externas às áreas centrais do curso, em regime de opções livres e sem encargos adicionais.
A segunda nota é para recomendar aos estudantes e respetivas famílias uma escolha criteriosa do curso. Sabemos que há hoje uma procura maior de proficiência nos domínios das Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas. Mas precisamos de todos os domínios, também das Ciências Sociais, das Artes, das Humanidades. Todos eles são essenciais para o cruzamento de saberes, o qual será cada vez mais uma marca da construção de conhecimento no futuro. Além disso, o valor antecipável da formação é variável e encerra um assinalável grau de incerteza. Cabe, assim, a cada um fazer a sua opção tendo em conta vocações e capacidades próprias, apetências, sonhos. Na certeza de que as perspetivas laborais e de vida serão mais risonhas para quem se preparar melhor.