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Regresso ao Manifesto pelo Interior

Regresso ao Manifesto pelo Interior

Artigo de Opinião de Luís Braga da Cruz, Ex. Ministro da Economia de Portugal, publicado no jornal Vivadouro

Como é habitual com muitas outras iniciativas bondosas, o Manifesto pelo Interior foi notícia durante cerca de uma semana. Recolheu alguns comentários favoráveis por parte de comentadores nacionais, mas depressa a comunicação social passou adiante. Quanto ao poder político, parece que só esperava que as propostas fossem rapidamente esquecidas e não se viessem acrescentar a outros reivindicações ou acordos políticos com impacto nas contas públicas.  

Os próprios promotores da iniciativa, apesar da sua grande coragem cívica e não obstante a sua sincera neutralidade ideológica, depressa se consternaram perante a falta de entusiasmo que as suas propostas levantaram entre as forças governamentais e o público em geral. Apesar dos portugueses terem ficado perturbados com os incêndios de 2017 e de terem compreendido a relação destes com o estado de abandono de uma parte importante do território nacional, não estão disponíveis para reflectir sobre as verdadeiras causas das assimetrias regionais ou se empenharem em saber o que pode ser feito para alterar este injusto determinismo.

O mérito do Manifesto pelo Interior esteve em ter procurado ser selectivo, não ter elencado um grande role de medidas, de ter sabido fazer escolhas sensatas e que não fossem de difícil concretização. Teria sido fácil acrescentar muitas outras. Mas os autores preferiram fazer uma reflexão crítica e expressar soluções viáveis.

No mínimo, merecia ter tido uma atenção especial, que os autores fossem questionados sobre a viabilização dessas medidas, que tivesse havido algum "feed back", em vez de se ter apostado no rápido esvaziamento do tema para não perturbar o curso da governação, como se tratasse de mais uma qualquer reclamação que viesse estragar o défice anual.

Também se estranha que os partidos que apoiam o Governo, tão atentos a exigir a abertura dos cordões do orçamento em despesas que melhorem as condições de vida dos portugueses, tenham revelado tão grande distanciamento em relação às temáticas do Interior e não tenham tomado as dores deste desconforto. Sei que nem os que vivem no Interior cubicam muitos votos, nem a questão da interioridade é apelativa para o eleitorado urbano. Mas o que está em causa são questões nacionais graves, que terão custos acrescidos se nada fizermos por estes territórios abandonados.

Os autores do Manifesto terão cometido um erro, quando anunciaram que após a proclamação das suas propostas de extinguiriam como grupo. Assim se descartavam de uma má consciência que os consumia, podendo proclamar que apenas cumpriram o seu dever cívico. Porém, entendo que deveriam reclamar do País a garantia de continuidade para um debate necessário e inevitável. As medidas propostas poderiam ser discutidas, melhoradas ou substituídas. O que não é admissível é a iniciativa ser remetida para o limbo da benevolência e tudo ser esquecidas tão rapidamente, para além de desmotivar aqueles que se predispõem ao empenho cívico.