Quando a Guerra se serve no prato
Artigo de Opinião de Isabel Estrada Carvalhais, Deputada ao Parlamento Europeu
A importância da Ucrânia e a da Rússia no contexto global da agricultura e dos sistemas alimentares é grande, pelo que a invasão russa à Ucrânia, para além do incalculável sofrimento humano, traz também outros danos severos, financeiros, energéticos, logísticos e naturalmente de fun- cionamento dos mercados.
A História mostra-nos que as guerras se fazem sempre com recurso a múltiplas armas, e amiúde as munições ganham também a forma de estratégias de comunicação e de imagem, de informação e de contrainformação, e de gestão dos impactos bélicos, entre eles a alimentação. Ora, a guerra em curso também há-de chegar-nos ao prato e, infelizmente, para a população ucraniana que ainda resiste no seu país, a fome começa já a ser uma dura realidade.
De facto, preveem-se que os efeitos na agricultura venham a ser particularmente austeros. Em 2021, tanto a Rússia como a Ucrânia estavam no top 3 de países produtores e exportadores de trigo, milho, colza, sementes e óleo de girassol. Também a Rússia era o principal exportador de fertilizantes de azoto, potássio e fósforo. Muitos países, como o Egito, são altamente dependentes não só da importação de produtos alimentares da Ucrânia e Rússia, como de fertilizantes para cultivar a sua própria produção endógena. Esta dependência amplifica assim os efeitos indiretos deste conflito, e explica porque um risco aumentado de insegurança alimentar não se limita às fronteiras da guerra, mas assume uma dimensão intercontinental e explica também porque dizemos que a guerra também acabará por nos chegar ao prato. O que podemos antecipar? Segundo as estimativas da FAO, esta quebra no mercado de produção agrícola poderá levar a um aumento do preço tanto de produtos alimentares, como de rações para animais, entre 8 a 22%, sobre preços já de si inflacionados. Recordemos que no ano passado, o índice de preços de alimentos da FAO indicava já valores nunca vistos desde a década de 1970.
No imediato, a capacidade da população ucraniana em se nutrir está profundamente limitada e comprometida, e os riscos de insegurança alimentar severa são reais, seja pelos constrangimentos na produção alimentar local, seja pela limitação drástica da atividade económica, seja ainda pela subida súbita de preços.
São agora, mais do que nunca, necessárias medidas internacionais de ajuda humanitária que protejam os ucranianos que resistem, da fome. No que diz respeito à gestão do mercado agroalimentar, é vital que asseguremos a sua transparência, de forma a minimizar as disrupções de abastecimento, cujas principais vítimas serão desde logo (como sempre tem sido) as regiões e os países em situação mais vulnerável.
Face a estes desafios, somos também chamados ao desafio de pensar em soluções de diversificação de abastecimento, trabalhando no sentido de diminuir a dependência externa face a diversos fatores de produção e no sentido de trabalhar a antecipação e prevenção de choques semelhantes que possam emergir no futuro agroalimentar. Tarefa mais fácil de dizer do que de fazer, e que idealmente se faz antes das crises e não enquanto elas decorrem.
Desde sempre os cercos e a fome foram utilizados como instrumentos de inúmeras estratégias de guerra, como forma de quebrar ânimos, forçar rendições e até mesmo dizimar povos. Pese embora toda a sofisticação dos modernos conflitos, estes instrumentos são ainda entendidos como eficazes por quem se entrega à lógica da guerra, sem olhar ao sofrimento humano causado. Por outro lado, mesmo fora das lógicas de intencionalidade bélica, a verdade é que num tempo de interdependência global, a fome pode emergir como consequência do efeito contaminador de múltiplas disrupções ocorridas ao longo das cadeias de produção e de abastecimento.
Ora, não podemos dissociar o delicado contexto geopolítico atual, dos efeitos que este já tem e acabará por ter na subida dos custos de vida e no aumento da percentagem de cidadãos em situação de insegurança alimentar, tanto fora, como dentro da UE onde já antes da pandemia eram cerca de 110 milhões os cidadãos que viviam em situação moderada ou severa de insegurança alimentar. Ou seja, num vocábulo mais simples, ainda que metodologicamente menos rigoroso e politicamente menos simpático, numa situação de fome.