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Porque quem pensa é perigoso...

Porque quem pensa é perigoso...

Artigo de opinião de Mário Dorminsky, diretor do Fantasporto, sobre a situação do setor cultural

Estamos no Porto. Novembro de 2017. Tivemos 4 anos de um mandato Municipal gerido "com pinças" por Rui Moreira e que, ao contrário dos anteriores 12 anos de Rui Rio à frente da Câmara Municipal do Porto, teve como "bandeira" de governação a Cultura. A questão que se pode levantar é: que Cultura?

Rui Moreira volta a ganhar as eleições e por maioria absoluta. Pouco ainda se sabe do que vai fazer mas seguramente que manterá a Cultura como algo primordial no seu novo mandato. É necessário analisar o que foi feito, que reflexos teve na cidade e implementar essas conclusões de forma a que esta possa abranger públicos mais amplos e o elevadíssimo número de turistas que invadem diariamente a cidade, procurando algo que traduza a realidade cultural que somos.

Tal pode ser um trabalho titânico porque vale a pena recordar o que foram aqueles 12 anos de Rui Rio a frente da CMP.

Vimos o Porto “secar”.  A cultura bateu mesmo no fundo. Mas pior do que isso, os portuenses viram daqui sair as sedes das grandes empresas, dos bancos e até mais de 100 mil habitantes! Aparentemente usou-se a catastrófica estratégia de “fechar a luz”, de deixar o Porto “às escuras”, de esvaziar o centro de cidade, de deixar morrer o pequeno comércio… quis-se “matar” quem faz cultura. Porque esses pensam. Porque os que pensam fazem e serão seres perigosos.

Por alguma razão será que então, no Porto de Rio só se falou de contas. Eram fáceis de fazer. Não se pregou um prego durante esses doze anos e esqueceu-se a cidade.

Estranho e contraditório, até pelo que está à vista de todos, é que se tenha dito ter feito a revitalização do centro do Porto! Terá isso a ver com a proliferação de bares e a malta que vai beber copos à sextas e sábados à noite, ali para as bandas da chamada Praça de Lisboa?

Mesmo assim, jornais de referência estrangeiros consideram o Porto como um destino turístico por excelência. Até o é, mas não pelas razões que se apregoa aos quatro ventos. Gosto (salvo seja!) em particular da referência do New York Times, e cito "é uma cidade barata, come-se bem e bebe-se melhor!". Sinceramente, se é por isso que o Porto quer ser conhecido mundialmente, muito mal está quem pode gerir a imagem de uma cidade.

Se ao menos apostasse na marca Porto, que até existe e bem forte no Vinho do Porto, no Futebol Clube do Porto ou na Cultura, tudo bem.  Mas isso implicaria que se tivesse investido a sério em eventos como o Fantasporto ou o Fitei. Assim, teria lógica. Mas não. E já agora convém lembrar “os outros” (sim, eram mais de dez) médios ou grandes eventos que anualmente o Porto vivia e que morreram espezinhados na sequência de uma estranhíssima cruzada feita por Rio contra a Cultura na cidade. Sei que passamos a ter o Primavera Sounds, e que a cidade mantém, felizmente, um património fantástico e espaços de referência. Mas quem os manteve vivos? O Governo e as duas Fundações existentes que ainda garantem no Porto a gestão de cerca de uma dezena de equipamentos culturais e ainda o Coliseu que é “sustentado” pelos alugueres e pela sua liga de amigos. Ah! Já me esquecia de referir, o Rivoli, que “virou” com Rio a sala do La Féria e, nos intervalos, a sala de aluguer com uma programação completamente desapropriada para o local. Agora, renovado, dedica-se sobretudo às artes do palco tentando aos poucos  ir ao encontro da população da cidade.

 

Porque “quem faz” os assusta…

Porque “quem faz” assusta quem “não mexe uma palha”.  Uma cidade é para ser vivida. É preciso cativar investidores proporcionando-lhes condições para montar os seus negócios. É preciso saber gerir sem "milhões" ou conquistá-los a quem os tem.  Ter boas equipas no terreno. Fazer.

Também no desporto e no movimento associativo tudo colapsou. Deixaram-se os clubes ao abandono total (sobretudo os mais pequenos) e as associações culturais quase desapareceram. Onde estão os novos pavilhões, as piscinas, os campos de futebol, as sedes e espaços de trabalho que permitam a milhares de jovens ou menos jovens, praticarem desporto ou desenvolver projectos culturais ou de lazer? E o que foi feito na renovação do parque habitacional? Será que se construíram de raiz habitações para os mais necessitados e para os jovens? Que se acabaram com as ilhas? Não continuam, vítimas agora de especulação imobiliária.  Que se renovaram os bairros? Esse continua um mundo à parte.

Mostrar ao País o que é de facto o Porto de hoje é fundamental. Vivo, animado, interveniente na vida do país.

E não tenhamos ilusões que, a partir do momento em que Rui Moreira venceu as eleições, tudo leva a crer que se está a construir uma grande metrópole, mesmo em tempo de crise. Assim esperamos.