O sinal verde das eleições europeias
Artigo de Opinão de David Pontes, Diretor-adjunto do jornal Ó Público
Nos tempos que correm, tem-se ouvido mais as vozes do medo do que as da esperança. Fechamos os países, fechamos as portas, fechamos os olhos e até fechamos o cérbero. O medo convoca forças poderosas e isso explica em parte que a liderança da nação mais importante do mundo, os EUA, estejam em estado de negação em relação às alterações climáticas. Sabendo de ciência feita, que o Mundo, a sobrevivência de muitas espécies, e mesmo da nossa, está em risco, os resultados das eleições europeias devem ser também vistos como uma resposta ao medo, mas no sentido certo, o da esperança.
"Os adultos continuam a dizer que devem aos jovens a esperança. Mas eu não quero a sua esperança, eu não quero que vocês tenham esperança. Eu quero que vocês entrem em pânico, eu quero que vocês sintam o medo que eu sinto todos os dias. E então eu quero que vocês atuem, quero que vocês atuem como se estivessem numa crise" disse Greta Thunberg, a sueca de 16 anos que se tornou o resto e a voz de uma geração que entende o sentido de ultimato dos efeitos do aquecimento do planeta. Ela não falava para os eleitores europeus, mas para os líderes reunidos Davos. Mas seja por medo, seja por esperança na mudança, a sua mensagem esteve com muitos europeus no momento de atuar como eleitores.
Como se calhar em nenhuma outra vez (é isso que nos parece dizer a redução da abstenção), os eleitores perceberam que havia uma causa que só pode ter uma solução satisfatória se for tratada a um nível transacional e que a União Europeia era o espaço para tomarem uma posição.
Milhões votaram pelos partidos que tem a luta pela causa ambiental entre as suas preocupações o que garantiu um número recorde de lugares aos “verdes” no Parlamento Europeu. Na França, ficaram em terceiro lugar, bem à frente dos partidos tradicionais, com 13,5 % dos votos. Na Alemanha, tiveram o seu melhor resultado numa eleição nacional, com 20,5%, um aumento de 10% em relação às anteriores eleições europeias. Na Inglaterra obtiveram a melhor votação desde 1989, à frente dos conservadores. Em Portugal, o PAN elegeu pela primeira vez um eurodeputado e mesmo o Bloco de Esquerda, mais identificado com as preocupações dos jovens deve ter beneficiado da “onda verde” para o seu bom resultado.
As eleições europeias também se traduziram na subida de algumas forças populistas, que tendem a menosprezar a causa ambientalista, mas a sua força no Parlamento Europeu não se pode comparar à capacidade ganha pela bancada verde que subiu 40%, conquistando 69 dos lugares e tornando-se o quarto maior grupo. Num parlamento em que os as duas grandes famílias políticas europeias o centro direita e centro esquerda, que governaram a Europa nos últimos 40 anos, perderam a maioria da assembleia, tanto os verdes como os liberais tornaram-se cruciais para a governação e para a aprovação de legislação.
Mas a maior surpresa a provir dos resultados de 26 de maio talvez seja o efeito de contaminação que eles podem gerar. Até agora temos podido assistir, não sem alguma sensação de sufoco, como muitos dos partidos do sistema têm incorporado no seu ideário algumas das propostas das forças mais populistas, normalmente à direita, em áreas como a emigração, os direitos das mulheres ou a economia. Fazem-no numa tentativa de conter a erosão do seu eleitorado que, consideram, está a optar pelas propostas mais extremistas. apesar dos resultados desastrosos – olhe-se para França, Espanha ou Áustria.
Ao descobrirem que há um tema que parece estar na cabeça de muitos eleitores, especialmente da nova geração de votantes, como o demonstraram as eleições europeias, é natural que muitos partidos do sistema – aqueles que normalmente estão em melhor condições de governar – venham a injetar nos seus programas as preocupações ambientais dos que agora lhe parecem estar a disputar o eleitorado. Fá-lo-ão mais por medo do que por convicção genuína, mas deixai-los: o resultado final pode bem trazer mais alguma esperança para este planeta.