Mikhail Gorbachev e o diálogo aberto com a História
Artigo de Opinião de Isabel Estrada Carvalhais, Deputada ao Parlamento Europeu, publicado em Correio do Minho
Retomo neste primeiro dia de setembro, as minhas habituais crónicas quinzenais no Correio do Minho. Já lá vão 15 anos desde que iniciei esta grata colaboração, com apenas um pequeno interregno de dois anos. Sempre que volto a estas crónicas, entusiasma-me pensar sobre quais os temas que podem captar a atenção dos nossos estimados leitores. E o que não faltam nesta primeira semana de rentrée, são temas merecedores da nossa análise e reflexão. Contudo, há um que me parece absolutamente incontornável e que se sobre- põe a todos os outros: a partida de Mikhail Gorbachev.
Nasci e cresci num tempo em que o pano de fundo da política internacional era a Guerra Fria. Tudo parecia então (e era de facto) contaminado, de modo mais ou menos direto, por essa Guerra. Uma guerra que nunca foi (e nunca seria) declarada entre os seus principais protagonistas (leia-se EUA e URSS), mas que ia sendo combatida, década a pós década desde os anos 50, um pouco por todo o mundo. Da América Latina ao Vietname, do Próximo e Médio Oriente a todo o continente africano. Um combate feito por milhões de soldados, milhões de peões de um xadrez que só na aparência era delimitado pelas fronteiras territoriais, religiosas, tribais e políticas dos seus espaços de confronto direto.
Como eu, muitos de nós vivemos a nossa infância, juventude e até parte significativa da vida adulta, num tempo que pertenceu ao que hoje não passam de curiosidades históricas para os nossos jovens, como a existência da Checoslováquia e da Jugoslávia de Tito, ou de uma Alemanha dividida em duas, numa Europa de fronteiras e passaportes. Era o tempo da “cortina de ferro”, expressão que condensava a natureza da profunda divisão ideológica que marcava o mundo e que talvez nada tenha materializado de forma tão pungente como o Muro de Berlim. Na escola, a URSS era sinónimo de imagens a preto e branco que mostravam políticos velhos e carrancudos, que se cumprimentavam com beijos na boca, e que assistiam a paradas militares, encasacados até às orelhas sob um frio siberiano. É neste contexto de profunda divisão (e manipulação, convenhamos) ideológica que emerge Gorbachev.
Gorbachev é uma figura extraordinária e por muitas razões que hoje podem explicar essa avaliação. O seu profundo sentido pragmático da ação política estará talvez entre as razões menos glamorosas, mas certamente das mais importantes e elucidativas.
De facto, Gorbachev era um político soviético com uma leitura muito lúcida e profunda sobre a complexidade da realidade social, económica e política da URSS e que percebeu bem a necessidade vital de iniciar uma ação transformativa que impedisse a própria implosão da União Soviética. O seu pensamento e ação contemplavam tanto a vertente interna como a vertente externa da URSS, e foi essencialmente esta última a que mais terá contribuído para a sua ascensão a ícone político mundial e para a sua entrada na galeria de nomes da História Mundial.
Muitos quiseram ver em Gorbachev o símbolo maior da claudicação cultural do Leste, uma espécie de rendição ao Bem, leia-se à cultura americana. Nada mais errado. E por isso, quando se aperceberam que Gorbachev não era um convertido ao brilho ocidental como inicialmente o idealizaram, ficaram dececionados. Queriam mais. Queriam um Gorbachev de havaianas, em Malibu, que proclamasse para todo o sempre That’s all, folks! (E é tudo, malta!). Que acabasse, quem sabe, onde o presidente Ronald Reagan começara: em Hollywood. Mas Gorbachev não era nada disso, não era um embuste ao serviço de uma das partes, naquilo que nesse caso seria, isso sim, o perpetuar de uma divisão ideológica que continuaria a macerar o mundo.
Quando Gorbachev chega em 1985 a secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, a URSS estava numa difícil guerra em território afegão (de onde aliás acabaria por se retirar em 1988), e vivia numa economia anquilosada sem qualquer capacidade de sobrevivência se exposta (o que Gorbachev também soube ver como inevitável) a um contexto global de mercado aberto cada vez mais competitivo, aguentando-se muito graças aos artificialismos corretivos de um Estado para mais pesado, burocrático e acumulador de múltiplas ineficiências.
Gorbachev percebeu a urgência da modernização, a urgência de reformas estruturais na Economia, mas também na Administração do Estado, e percebeu que nada disso se poderia fazer à margem e sem o apoio de um mundo cada vez mais globalizado e interdependente. É esta leitura pragmática das circunstâncias concretas da URSS que está em boa medida na base da sua abertura ao Ocidente. Gorbachev percebeu que no diálogo, na criação gradual de pontes, em especial com os EUA (recordemos o Tratado INF, negociado durante seis anos, assinado em Washington em 1987, e que foi de inquestionável relevância histórica na redução efetiva de armamento nuclear entre as duas grandes potências), estavam os caminhos para auxiliar a URSS numa vital transformação interna que a resgatasse de graves crises que, no limite, poderiam levar ao seu desmembramento.
Como sempre, há os que consideram que Gorbachev não foi célere e incisivo o suficiente na implementação de reformas de fundo, e há os que consideram que ele era apenas um tipo da velha guarda apostado em dar uns ares de modernização que permitissem aguentar um Leviatã condenado em todo o caso a ser cadáver da História. Outros ainda ficarão para sempre ressabiados com o facto de o não terem encontrado com óculos à Jack Nicholson, algures em Las Vegas, plenamente convertido ao capitalismo de casino.
Outros continuarão a fazer uma espécie de perícia post mortem ao seu carácter, à procura de peças que revelem falhas na sua verticalidade como político, ou como cidadão. Muitos não lhe perdoarão, por exemplo, o facto de ter aplaudido a anexação da Crimeia por Moscovo em 2014 e outros questionarão se merecia o prémio nobel da paz em 1990, dedicando-se a rever as suas contradições entre a defesa da democracia liberal e a sua lealdade a uma certa imagem de uma Rússia imperial.
Em tudo isto, talvez se possa dizer então simplesmente que Gorbachev não foi mais do que um homem do seu tempo, que procurou responder sem heroicidade, mas com pragmatismo político aos desafios que foi capaz de identificar. Mas, não estará afinal nesta imagem menos glamorosa, a essência de Mikael Gorbachev como verdadeiro líder transformador: procurar, no contexto das suas circunstân- cias, fazer escolhas e percorrer caminhos, desconhecendo como essas escolhas e esses caminhos o irão expor ao escrutínio da História?
Seja como for, a História já o acolheu, esta semana, aos 91 anos. E será agora, a partir da História, que o diálogo com a sua obra, com o tempo e o espaço da sua ação concreta, poderá ser continuado.?