Juntos venceremos
Artigo de Opinião de José Manuel Fernandes, Deputado ao Parlamento Europeu
O povo ucraniano e o seu presidente Volodymyr Zelensky têm demonstrado uma coragem impressionante e inspiradora. Estão a defender a sua pátria, a liberdade, a democracia, a dignidade humana e os valores europeus. Estão a defender-nos, a lutar também por nós. Foram eles que conquistaram a opinião pública mundial, tendo obrigado os nossos governantes a finalmente avançarem para sanções e medidas duras contra Putin e os seus amigos oligarcas.
É nossa obrigação tudo fazer para salvar vidas humanas, prestar toda a ajuda humanitária possível e apoiar os refugiados.
É impressionante a onda de solidariedade dos europeus e, nomeadamente, dos portugueses. Nós sabemos que poderíamos ser nós. Mas, como sempre acontece, reagimos em vez de agirmos. Uma vez mais é também o medo que nos move. Aliás, a UE nasceu e tem avançado com base no medo e num misto de solidariedade e egoísmo. Face à invasão da Rússia, reagimos agora, pois tivemos medo ao perceber que Putin não quer ficar pela conquista da Ucrânia. As decisões da UE são positivas e sem precedentes. Pela primeira vez, a UE financia a compra de armas letais, e avança com pesadas sanções económicas e financeiras em relação à Rússia. Há governantes que são mesmo solidários. Há outros que só são solidários porque sabem que se não se atuarem agora e pararem Putin, a seguir também sobrará para eles. Tem sido sempre assim! Por isso, reagimos, decidimos no último segundo e corremos atrás do prejuízo. Foi com o medo de novas guerras que iniciámos a construção da agora União Europeia. O sucesso foi de tal forma que demos a Paz como absolutamente adquirida e no solo da UE nunca mais tivemos guerra. Foi com o medo do contágio das crises soberanas, que criámos mecanismos de defesa do euro e o mecanismo europeu de estabilidade. Foi com o medo de uma crise económica fruto da pandemia, que se avançou para os Recovery Bonds e se construíram os Planos de Recuperação e Resiliência.
Há muito que havia provas de que Putin não é confiável. Não respeita os acordos, nem a lei. A Ucrânia, em 1994, assinou o memorando de Budapeste e entregou os milhares de armas nucleares, com o compromisso da Rússia respeitar a integridade territorial da Ucrânia. Putin anexou a Crimeia; envenenou adversários em solo da União Europeia; ajudou o regime da Síria, na esperança que uma vaga de refugiados destruísse a UE; e fez bullying constante à Suécia e à Finlândia. Há muito que havia fortes indícios de que Putin quer alargar o território e que a Ucrânia seria o primeiro alvo. Se o deixarmos, a seguir será a Moldávia, com a desculpa de que tem de proteger os russos da Transnístria. E continuará...
A UE tem responsabilidades. Foi interesseira e ingénua. Não preveniu. Desvalorizou todas as provas e sinais. É incrível, mas continuamos a financiar as armas russas. Neste momento, consumimos por dia em gás russo cerca de 660 milhões de euros!
É uma urgência que a UE seja independente, do ponto de vista energético e, no mínimo, que não seja dependente da Rússia. Há anos que escrevo neste espaço sobre esta urgência e prioridade. Fica também evidente que na UE temos de reforçar a nossa defesa. Foram anos de desinvestimento militar, que temos de recuperar. Para além disso, não podemos estar sempre à espera dos EUA. Não estamos livres de termos um imprevisível Trump a governar os EUA, o que na situação atual seria desastroso. A UE tem de trabalhar a sua autonomia estratégica. Não basta ser forte economicamente, também tem de o ser militarmente. Aliás, o PIB da Rússia é sensivelmente o mesmo de Espanha. A força que tem resulta apenas da força militar e das armas nucleares.
A invasão injustificada de Putin à Ucrânia uniu a UE e fortalecerá a Nato. É provável a adesão da Suécia e da Finlândia. Há mudanças radicais: a Alemanha vai investir já 100 mil milhões de euros no seu orçamento militar e depois financiá-lo anualmente com 2% do seu PIB.
A Rússia está isolada e cada vez mais mal acompanhada, como prova o facto de apenas ter tido o apoio da Bielorrússia, Coreia do Norte, Eritreia e Síria numa resolução da ONU que condenou o ataque à Ucrânia. Registem-se as abstenções de Aliados tradicionais da Rússia, como Cuba, China ou Nicarágua.
Previsível para mim, surpreendentemente para muitos, foi o voto contra do PCP, através dos seus dois eurodeputados, a uma resolução do Parlamento Europeu de apoio à Ucrânia e que contou com 637 votos a favor, 13 contra e 26 abstenções. Não nos podemos esquecer que o PCP é contra a Nato e é incapaz de condenar os regimes da Coreia do Norte ou da Venezuela.
Aliás, como tenho referido muitas vezes, o PCP acompanhado muitas vezes pelo Bloco de Esquerda votam no mesmo sentido da extrema-direita, ainda que por razões diferentes, na maioria das votações no Parlamento Europeu.
A UE é a solução que temos para defender a Paz, o progresso e os valores europeus. Para isso, temos de atuar de forma unida, partilhada e solidária.
Mas cada Governo deve fazer a sua parte e aliviar os exagerados impostos que cobra na energia e que se repercutem nos produtos alimentares. Cada um tem de fazer a sua parte e cumprir. Juntos venceremos!