A Transição Democrática em Espanha
Artigo de Opinão de Luís Braga da Cruz, Engenheiro Civil
É usual comentar o que se lê no período de férias, como desafio a leituras menos habituais. Pela minha parte, entremeio géneros distintos: história, ensaios, autores clássicos, ficção e biografias... Mas há sempre um livro especial que, pela sua dimensão e densidade só se consegue desbastar nas longas manhãs de Agosto. Desta feita, a escolha recaiu sobre um livro recente (2017), cujo autor conheci em Vila Real, numa iniciativa da Casa de Mateus, em Novembro passado, sobre um tema tão provocador como recorrente para os que se preocupam com as ambições históricas do país vizinho: "Repensar a Ibéria - Uma Reflexão sobre a Europa" . O autor em causa, convidado para o encontro em Mateus, era o Prof. Santos Juliá - catedrático e especialista da história social e do pensamento político espanhol no século XX. Uma das suas obras pesadas é justamente o excelente ensaio que li: "Transición - Historia de una política española (1937-2017)" . Cobre o complexo período de 80 anos que dividiu e continua a pesar sobre a sociedade espanhola contemporânea, desde o meio da guerra civil até aos nossos dias.
O que nos ensina esta obra? Que a aspiração para reconstituir a democracia, que o levantamento militar de 1936 interrompeu, é um sentimento que se esboça ainda durante a guerra civil, com a mediação diplomática da Santa Sé, da França, da Inglaterra e o empenho pessoal do presidente espanhol - Manuel Azaña. No entanto, as clivagens entre os dois lados eram já de difícil conciliação, o que comprometeu qualquer proposta de armistício ou de período de transição sem vencedores e vencidos. Jaques Maritain, prestigiado pensador católico francês e activo num comité para a paz civil e religiosa em Espanha reconhecia entristecido que "a guerra que se travava em Espanha era uma guerra de extermínio". Franco não aceitava senão rendição sem condições, enquanto do lado governamental só o partido comunista espanhol não queria ouvir falar em armistício.
À guerra de Espanha seguiu-se a 2.ª Guerra Mundial, da qual os países do eixo, que apoiaram Franco, saíram derrotados. Uma nova esperança se formou entre os espanhóis vencidos, que no exílio alimentavam a espectativa de que os aliados exigissem aos falangistas a reconstituição da democracia em Espanha. Mas era difícil garantir uma posição uniforme dos opositores de Franco, dispersos por exílios territoriais distantes e com grande variedade de posições políticas. Por outro lado, também, a tolerância internacional para com Franco permitiu que o seu regime o acompanhasse até ao seu desaparecimento físico, em Novembro de 1975.
É de exaltar a progressiva evolução que as forças políticas espanholas construíram no sentido de uma transição evolutiva suave. Transição pressupunha reconciliação e amnistia, que não é esquecimento. Apesar da sagacidade política das duas grandes figuras no primeiro período da transição - o Rei D. João Carlos e o chefe do governo Adolfo Soarez - as feridas não sararam facilmente e ciclicamente surgem novos desenvolvimentos. Face à inevitável comparação com a transição portuguesa, concluímos que a rotura em Portugal terá sido mais traumática e radical, mas que o tema ficou melhor resolvido.
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"Repensar a Ibéria; Uma Reflexão sobre a Europa; Testemunhos de um encontro", Fundação da Casa de Mateus, Vila Real, 2019.
Santos Juliá, "Transición; Historia de una política española (1937-2017)", Galaxia Guttenberg S. L., Barcelona, 2017.