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A Linha do Douro

A Linha do Douro

Artigo de Opinião de Luís Braga da Cruz, Ex. Ministro da Economia de Portugal, sobre a reabilitação do tráfego ferroviário entre a linha do Douro e Salamanca

Na última Cimeira Ibérica entre Portugal e Espanha, em Vila Real, não terá sido abordado como alguns esperavam o tema da reabilitação do tráfego ferroviário entre a linha do Douro e Salamanca. O que está em causa é um troço português, de 28 km, entre o Pocinho e a fronteira de Barca de Alva, e um troço espanhol, com cerca de 75 km, entre esta fronteira e La Fuente de San Esteban, o ponto de enlace no trajecto ainda em serviço, entre Vilar Formoso e Salamanca.

Recuperar esta linha seria um acto de grande importância estratégica e simbólica. Seria uma forma de contribuir para a quebra do isolamento a que o Douro foi votado, mas também um factor de promoção turística do Douro Vinhateiro. Tecnicamente o corredor ferroviário do Douro é muito favorável, para o acesso de mercadorias ibéricas ao Porto de Leixões, solução preferível á alternativa da Linha da Beira Alta e da congestionada Linha do Norte, entre Ovar e Gaia.

Em termos simbólicos, também seria uma homenagem á burguesia do Porto que, no final do século XIX, investiu na expansão do comércio com o interior da Península. Foi em 9 de Dezembro de 1887 que a ligação a Salamanca foi inaugurada, depois de uma ousada aventura técnica, para vencer um desnível de 330 metros, em apenas 16,5 km, entre Barca d'Alva e La Frajeneda (10 pontes metálicas, 20 túneis, inclinações que chegavam aos 21%). Este troço é  tão impressivo que chegou a ser objecto de classificação pelo governo espanhol como Bem de Interesse Cultural, com categoria de monumento nacional.

Como se sabe a conexão Barca d'Alva - Salamanca começou por ser descontinuada na parte espanhola em 1985 e entre Pocinho e Barca de Alva, em 1988. Porém, a linha, as plataformas e demais infraestruturas foram-se deteriorando, de tal forma que repor a circulação implica investimentos criteriosos. Devem registar-se as várias acções voluntaristas que se foram desenvolvendo para defender a reabertura da linha, nomeadamente as de iniciativas dos municípios ribeirinhos e pela Estrutura de Missão da Região Demarcada do Douro, em 2007, e pala própria REFER.

Em Setembro de 2016, as Infraestruturas de Portugal (empresa publica herdeira da REFER) elaborou um exaustivo estudo técnico para enquadrar o futuro da "Linha do Douro, Troço Ermesinde - Barca d'Alva e Ligação a Salamanca", fazendo a "Análise de Intervenções na Infraestrutura Ferroviária". Concebeu oito cenários distintos para diferentes exigências de serviço e avaliou os respectivos investimentos. Para o troço nacional os custos estarão entre 30 e 43 milhões de euros. Para a parte em Espanha, o investimento poderá estar entre os 87 e os 119 milhões de euros.

Numa lógica europeia de revalorização do modo ferroviário, até se pode dizer que não estamos perante investimentos inultrapassáveis. O que se reclama é que esta ligação seja ponderada com a importância regional que tem.

Da Cimeira de Vila Real, terá saído a decisão de constituir um grupo de trabalho conjunto para preparar as propostas a incluir no próximo quadro de investimento do programa europeu de cooperação transfronteiriça. É aí que teremos de colocar a nossa atenção na defesa dos interesses do Douro e reclamar as decisões políticas necessárias para viabilizar este projecto.    

Artigo publicado en "Douro Vivo.