COVID-19 – Turismo em "modo avião"
Artigo de opinião de Ana Ladeiras, especialista em turismo, sobre as consequências da crise do coronavírus
Infelizmente, hoje podemos afirmar com demasiada “tranquilidade” ou ligeireza, que os que nos dedicamos ao ensino universitário, à análise, à planificação e à assessoria turística falámos sobre as grandes mudanças e dinâmicas económicas, sociais, políticas e empresariais das últimas décadas, ou seja, de como o século XXI representou um antes e um depois na indústria da felicidade.
Falámos da multiplicidade de mudanças nas políticas fiscais, nos perfis do turista,na inversão das pirâmides demográficas, na massificação, na economia colaborativa e de um vasto etecetera. Destacámos sempre que a grande mudança vinha pela mão da inteligência turística, o mesmo é dizer, do acesso à informação para a tomada de decisões como grande revolucionário tanto para o turista como para o gestor: privado, para melhorar os seus resultados; ou público, para a infinidade de competências que o assolam no quotidiano turístico.
Contudo, perante a pandemia global do COVID-19 nem a inteligência turística nos ajudou (ou não soubemos interpretá-la) pois os dados, de per se, perdem o sentido, como dizia Leonardo da Vincci…).
Também é certo que nos empenhámos na comunicação da existência de condicionantes que nunca mudaram, nem mudarão, como os relacionados com as crises conjunturais, a segurança, os desastres naturais ou a saúde pública por não poderem ser controlados pela oferta (e nunca o serão...). Aqui, os nossos exemplos “estrela” sempre foram o terrorismo, os fenómenos naturais ou, mais recentemente, a primavera árabe.
Nem nos nossos piores pesadelos imaginámos que haveria algo capaz de parar e deixar em “modo avião” as nossas vidas, paralisando o que já é (era) desde há algum tempo, (felizmente) um bem de primeira necessidade, as viagens... Mas o pior (não incluindo, obviamente, a perda de vidas humanas e o conjunto de pessoas que ficarão com sequelas pulmonares para toda a vida) não é a nossa ansiedade frustrada de conhecer, de sair, de nos renovarmos mas antes, o prejuízo económico irreparável que quer em Espanha quer em Portugal (onde o peso do turismo no PIB nacional supera vastamente a média europeia e os 10%) vai causar.
Porque é que as diversas ajudas ao setor turístico por via do crédito, do apoio à tesouraria, da flexibilidade fiscal ou as facilidades para aceder ao lay-out/ERTE (termo utilizado em Espanha) serão claramente insuficientes e (provavelmente) o que é que os nossos governantes ainda não perceberam, ao “meter” o setor turístico na mesma “gaveta” que o resto dos setores de atividade económica, pressupondo-o equiparável a qualquer outro? Eis aqui as grandes diferenças que, oxalá, os decisores públicos possam observar quando a questão prioritária – a saúde pública – esteja bemencaminhada:
- Que setor de atividade económica tem um maior efeito multiplicador no emprego e na riqueza (isto é, efeito alavanca noutros setores)? O TURISMO. Tal pode não acontecer em destinos emergentes como a Eurorregião, mas no caso de Espanha e Portugal, este protagonismo é-lhe devido, desde de que superou o setor da construção a partir da última crise económica.
- Que setor conta com a agravante de contar com uma oferta para a qual o armazenamento não é possível? O TURISMO. As camas, os menús, as excursões, os lugares de avião não vendidos hoje, não podem constituir stock para amanhã... a venda foi perdida... e os custos fixos não foram cobertos.
- Que setor sofre de imobilidade espacial? O TURISMO e, principalmente, os negócios que se sustentam em importantes investimentos imobiliários.
- Pior ainda... Que setor terá um efeito “non-call” quando chegue o feliz momento de poder sair à rua novamente? O TURISMO. Todos cancelámos as reservas da Páscoa... Mas muitos já cancelaram as viagens do verão. É que desde da ótica da procura, o que todos mais temeremos, depois deste fenómeno, serãoas viagens (e não apenas as viagens de lazer mas, também, as de negócio...)
Se todos somos chamados a reinventar-nos neste período excecional, sabendo que depois do COVID-19 nada será igual, (nem o mundo global, nem a nossa comunidade, nem o nosso negócio, nem o nosso emprego, nem a nossa relação com a administração pública, ...), o setor do turismo também o é.
Uma vez mais, a inteligência turística (o conhecimento da nova realidade e a tomada de decisão informada) será fator chave nesta reinvenção.
Neste período (mais longo ou mais curto) no qual também a atividade turistica se suspende e fica em “modo avião” não podemos parar de aprender, de recolher informação, de interatuar com a procura e de inovar naquela que será a nossa oferta quando o mundo volte a “girar”:
- Como vão ser os turistas do “depois”?
- Como manter os turistas interessados no nosso destino, nos nossos tours, nos nossos hotéis, nos nossos monumentos, na nossa gastronomia?
- Como comunicar que será seguro viajar, que será seguro permanecer, que será seguro experimentar?
Como nos aviões, também na atividade turística, perder a “ligação” não pode ser perder a capacidade de pensar, analisar, criar ou inovar!
Esta é uma enorme oportunidade para pensar e planear e um não menos importante convite à cooperação entre todos os agentes turísticos, muito especialmente, aqueles que serão responsáveis pela reinvenção do destino Eurorregião Galiza-Norte de Portugal.
Aproveitemos todos este tempo para aprender com os outros, para partilhar experiências, para nos conhecermos melhor, para melhorar as nossas competências, ainda que virtualmente. Aproveitemos para digitalizar a atividade turística (em especial as PMEs) e desenvolver novas ofertas digitais e novos conteúdos.
Preparemo-nos para o depois porque, ainda que nada volte a ser igual, voltaremos a viajar e voltaremos a querer desfrutar de todas as maravilhas que o mundo continuará a ter à nossa espera.
Viva a indústria da felicidade! E como há séculos dizemos aos nossos peregrinos do Caminho de Santiago, gritemos juntos: ULTREIA! (Para a frente!)