COVID-19: O estado da cultura
Artigo de opinião de Vítor Silva, Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Maia
O sector cultural encontra-se atualmente entre os mais afetados pelo cenário da pandemia resultante do COVID-19. Atualmente, não só em Portugal, mas na maioria dos países assistimos à crise instalada na Cultura, resultante em inúmeros apelos e pedidos de apoio por parte de artistas, instituições e empresas da área.
Para termos melhor noção do impacto registado, devemos salientar de que se trata de um sector marcado pela proximidade entre artistas e público,por trabalhadores independentes ou freelancers sem mecanismos de proteção laboral para casos como este, e pela dependência existente por parte das empresas do setor das agendas culturais estabelecidas. As agendas culturais, precisas e rigorosamente programadas, na maioria dos casos com um ano de antecedência, foram gravemente afetadas com adiamentos e cancelamentos de eventos e espetáculos. Perante este clima de imprevisibilidade e incerteza sem precedentes, assistimos ainda a um abalo significativo da confiança do público em geral no setor.
Não existe, até ao momento, uma resposta coordenada ao nível da União Europeia, os apoios ao sector traduzem-se essencialmente por medidas direcionadas aos artistas e empresas do setor apresentadas, na maior parte das vezes, pelo poder local. A este respeito, o poder local está ciente,até mais do que o próprio Estado, de que são os denominados “sectores criativos” que promovem diretamente a coesão social e tornam os nossos municípios atrativos.
A História demonstra que, enquanto espécie, temos dificuldade em aceitar e lidar comas mudanças radicais, estas têm como reação natural a negação.Sendo otimista por natureza, gosto de pensar que seremos capazes de superar positivamente esta situação e que seremos capazes nos adaptarmos positivamente a um mundo diferente. A nossa perceção do mundo foi severamente afetada, estamos mais conscientes da nossa própria fragilidade e dos nossos limites, as nossas prioridades alteraram-se, vivemos atualmente num mundo mais reservado. Considero, no entanto, que o vírus pode ser um acelerador de processos que já estavam em curso, a maioria bons, mas também, alguns prejudiciais. Assim sendo, devemo-nos preocupar em encontrar novas maneiras de proporcionar condições a todos os envolvidos no processo cultural e desenvolver novos meios de coprodução e sobretudo,aproximar públicos, salvaguardando em todas as instâncias a sua segurança. Hoje mais do que nunca é essencial reafirmar a posição do paradigma cultural, desmistificando-o e destacando a sua importância enquanto mecanismo de prevenção a ideologias socioculturais exclusivas, visto que os períodos de crise se revelaram historicamente como oportunidades para implementação de ideologias xenófobas.
Para tal, serão necessários projetos de apoio capazes de abranger os profissionais do sector cultural, não só as suas empresas, mas também os artistas e pequenos produtores. No caso concreto do universo municipal maiato, a Maia, tem trabalhado ativamente no reconhecimento e defesa dos direitos e interesses dos profissionais do setor cultural. Um estímulo traduzido em apoios concretos, quer proporcionando oportunidades de apresentação pública das suas criações e performances nas infraestruturas culturais municipais, assim como pelo apoio diretoao investimento e inovação no setor.Estamos empenhados em promover a discussão do estado da Cultura para a esfera pública. Consideramos ser fundamental a adoção e o reforço de meios tecnológicos capazes de proceder à promoção cultural.
As restrições impostas pelo período de confinamento, levaram a que artistas procurassem auxílio em meios que eram, pelo menos para nós portugueses, pouco explorados. Atualmentea disponibilização de conteúdo online como o pay-per-view, a transmissão ou o streaming, têm servido como principais refúgios artísticos adotados, e passaram a ganhar relevo eimportância e ainda que não substituam a experiência presencial de um evento cultural, pelo seu meritório contributo, devem ser tidos em conta.Esta evolução implica, que daqui em diante, os profissionais criativos possuam um leque de conhecimentos linguísticos e informáticos assim como o domínio dos mais diversos meios de comunicação e redes sociais. Quanto a nós, enquanto entidades responsáveis pela oferta cultural e serviço público, caber-nos-á a capacidade de acolher e promover as suas criações em todas as suas dimensões.
Esta é certamente a altura para repensarmos a atividade e o investimento cultural e a sua indispensável expansão. Acredito ser este o momento indicado para a experiência, inovação e desenvolvimento de novas abordagens, assim como de políticas culturais baseadas numa integração que se exige cada vez mais abrangente e inclusiva.
Relativamente ao futuro, é necessário começarmos a encarar a Cultura como um importante fator de recuperação económica e um ativo dinamizador das suas áreas adjacentes, como é o caso do Turismo.No que toca ao caso concreto Português, julgo ser importante para todos que a Cultura passe a assumir uma voz e postura participativa face às políticas culturais adotadas, deixando de ser relegada para segundo plano no contexto das decisões que a si mesma dizem respeito.