Roberto San Salvador, autor do Mapa de Coesão Social: “25% da população está em situação de exclusão. É aqui que temos que intervir mais modificando algumas das ações”
Xoán Vázquez Mao, secretário-geral do Eixo Atlântico, Roberto San Salvador, autor do "Mapa da Coesão Social" e Emídio Sousa, presidente da Câmara de Santa Maria da Feira, cidade onde estão a ser testadas as medidas propostas no estudo, participaram no Programa Onda Cero e Antena Minho sobre a igualdade de oportunidades, as lacunas de vulnerabilidade, emprego digno ou lacuna geracional
O Eixo Atlântico apresentará no próximo dia 3 de outubro, em Ourense, o seu relatório “Mapa de Coesão Social”, publicação dirigida por Roberto San Salvador, Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Deusto e diretor da equipa de Investigação de Deusto Cities Lab Katedra.
O Mapa da Coesão não é apenas uma fotografia de cada cidade pertencente ao Eixo Atlântico, mas também visa partilhar informações dos municípios entre si para corrigir desigualdades e melhorar políticas coincidindo com os desafios globais a nível local que foram estabelecidos na Agenda Urbana. O Mapa da Coesão Social, o primeiro de um sistema urbano transfronteiriço, estuda a complexidade social, a igualdade de oportunidades, as lacunas de vulnerabilidade; a digitalização, a exclusão digital; a competitividade económica, o emprego digno e a lacuna geracional.
Roberto San Salvador afirmou que: “É um trabalho que tem antecedentes no mundo anglo-saxónico, mas é pioneiro, sobretudo, na sua aplicação territorial, pois pela primeira vez o destino do estudo não é um estado mas sim uma Eurorregião, um espaço transfronteiriço".
“No mapa, fundamentalmente, o foco tem sido nas lacunas de vulnerabilidade, mas também em três lacunas transversais: a geracional, de género e a digital. O estudo tem um duplo valor, por um lado, tenta tirar uma fotografia de uma realidade num determinado momento, mas, além disso, procura alternativas que possam ajudar as pessoas que têm responsabilidades políticas e técnicas. O estudo propõe 4 questões: organizar os serviços sociais em conjunto com outras áreas da administração municipal como por exemplo a habitação, a saúde ou a educação, para completar uma política social conjunta, incorporar posteriormente outras áreas de município relacionadas com o desenvolvimento económico, ambiental e cultural uma vez que elas também são corresponsáveis da coesão social e, posteriormente, ir configurando um ecossistema de inovação transformadora coesiva a nível local, incorporando o tecido económico e social e, finalmente, os próprios cidadãos anónimos. Estamos a viver este processo em Ribeira e em Santa Maria da Feira e é assim que podemos perceber se as propostas do estudo são aplicáveis ou não.
Roberto San Salvador acrescentou: “Temos que pensar que 25% da população está em situação de exclusão ou pode cair nessa situação. Isto significa que é aqui que devemos intervir, mas modificando algumas das ações. Por exemplo, o relatório mostra que existe uma convergência de razões para a vulnerabilidade em pessoas muito específicas. O primeiro marco em que estamos a trabalhar é ver como passar dos serviços e políticas sociais para políticas personalizadas. Os técnicos da Câmara Municipal podem fazer uma utilização mais razoável do tempo e recursos se dialogarem entre si para identificar essas pessoas que correm maior risco de exclusão".
“O segundo passo, que ainda não começou, mas que é objeto de trabalho neste outono, é como incorporar esses técnicos de outras áreas que se sentem estranhos à política social e que, no entanto, têm um papel decisivo porque geram riqueza, reorganizam o território, etc. e são agentes a acrescentar a este ecossistema”.
Xoán Vázquez Mao garantiu que: “O que pretendemos é que o mapa seja um roteiro e o início de um processo conjunto com a sociedade para abordar os aspetos que são mais importantes e que nunca se veem. Nos processos de desenvolvimento económico há sempre pessoas que ficam de fora, que são vulneráveis”.
“Não esqueçamos que, no caso galego, os poderes são autónomos e que no próximo ano há eleições. Não podemos dizer que a Xunta neste momento dá especial atenção a estes temas. É certo que houve a certa altura um conselheiro, que hoje é presidente de Ferrol, que prestou atenção e convidou muitos grupos mas vemos que a equipa atual, tudo o que faz, é privatizar os lares de idosos. Estas propostas do relatório vão ser enviadas a todos os partidos porque a nossa ideia é que as recolham e as vão integrando nas suas políticas de governo, governe quem governe. Que estas propostas se tornem realidade e não apenas propaganda eleitoral”, acrescentou o secretário-geral do Eixo Atlântico.
Santa Maria da Feira é a cidade que, juntamente com a Ribeira, está a trabalhar com a Universidade de Deusto para criar o laboratório de inovação. O seu presidente da Câmara, Emídio Sousa, explicou que: “A habitação é, claramente, um dos grandes desafios que temos como comunidade. Os preços são muito elevados e, por outro lado, os salários, na nossa região, não estão articulados para que as pessoas possam tornar-se independentes, o que constitui um novo desafio. Uma política pública que devemos avançar rapidamente, e que é transversal ao litoral e ao interior é uma política de habitação, temos que aumentar a oferta de habitação pública para mitigar esta falha de mercado".
"Feito este diagnóstico, percebemos que foram identificados os pontos que necessitam de intervenção. Penso que a maior parte dos municípios e das suas próprias regiões podem perfeitamente direcionar as suas políticas públicas para responder a este diagnóstico. Vou dar um exemplo que estamos a concretizar no meu município: a saúde, que é crítica em termos de qualidade de vida e de custos sociais, custos financeiros mesmo. Temos que trabalhar a saúde de uma maneira diferente e estamos a faze-lo aqui, por exemplo, com o pessoal médico. Tratamos da saúde antes de estarmos doentes, isto é, tentar trabalhar as com pessoas na forma de exercício físico, de uma alimentação saudável, de uma monitorização dos indicadores de saúde, para quê? Para termos qualidade de vida e autonomia até mais tarde”, acrescentou o presidente.
Escute aqui o programa completo:
Este programa está cofinanciado pelo projeto Fénix, no enquadramento do programa Interreg Espanha-Portugal (POCTEP) 2021-2027.